"Minhas criações são muuito inusitadas... Minha mente faz parte do meu corpo, assim tudo que eu leio ou aprendo passa a fazer parte do meu corpo, ou seja, carrego isso tudo sempre; estão sempre comigo. Quase todos os meus textos começam baseados numa única idéia, a tal idéia da inspiração e essa prima idea pode acontecer a qualquer momento e/ou toda hora. As coisas simplesmente acontecem, elas simplesmente vem..." Cézar Sturba
IkaRo MaxX - É com imenso prazer que aceito a proposta de fazer esta entrevista com o poeta e grande amigo Cezar Sturba. Nos conhecemos lá pelos idos de 2005 ou 2006 (não me lembro bem agora) aqui em João Pessoa. Na época eu fazia faculdade de Psicologia e você, já estudava Filosofia na UFPB - onde muitas vezes nos encontramos e através do desregramento da vida boêmia aprofundamos nossa amizade insuflando a cidade de poesia. Certa vez numa de nossas maravilhosas e intermináveis conversas enquanto destruíamos os totens desta cidade você me falou que não gosta muito de ler, que prefere até se manter distante ou alienado do mundo "pré-determinado" da literatura para sentir por si mesmo os espasmos da sua própria poesia... como se o seu corpo fosse um estetoscópio e a vivência um filtro para o fluxo invasivo do mundo. Me conte como você conseguia - se conseguia! - separar o Cezar estudante de filosofia - que é uma disciplina que exige um esforço de leitura, interpretação e escrita dos autores da tradição - do Cezar poeta, aquele que mandava a literatura constituída em cânones e chaves de pensamento à merda.
Cezar Sturba - Se não é Ácaro Maxx me jogando algumas perguntas do fundo do seu espírito livre.. como eu conseguia separar o pensar disciplinado da filosofia e a indisciplina de pensar a poesia? Isso vc tbm viveu, né? Cara, separar, me dividir, como uma puta que de dia é uma coisa e de noite é outra é o que mais faço. Naquela época eu tinha três “heteronômios”: um trabalhando num escritório cinza de advocacia em ambiente familiar, a noite estudante de filosofia e no meio disso uma pessoa que está sempre traduzindo aquilo que vive ou que pensa em linguagem poética. E em cada uma dessas esferas eu estava vivendo intensamente porque “We want the world and we want it noww”. Quem quer tudo se separa e assim eu sou; esparramado, desconstruido, vivendo os dissabores e sabores disso tudo. Condenado a viver, além da minha vida de sonhos loucos, a vida de qualquer Jeca de classe média. Mas vc perguntou sobre o choque dos planos de pensamento filosofia/poesia... A filosofia ajudou minha poesia de um modo indireto. Lá na fronteira entre as duas, onde o êxtase da criação intelectual, da idéia, é o mesmo, a filosofia estimulava minhas invenções poéticas e mantinha minha mente preparada não só pra pensar, mas tbm pra entender esse pensamento.
Talvez seja por isso que me sinto tão improdutivo no momento; nunca mantive por tanto tempo um diálogo com o mundo tão mundano como o que vivo agora, digo, um diálogo seco, sem tantos desdobramentos. Trabalho casa, casa trabalho, porque não tenho mais papai mamãe pra me sustentar. Um homem esgotado pela falta daquele ócio criativo que Aristóteles falava há 2.500 anos atrás! O estímulo racional da filosofia me foi sempre um catalisador.
IkaRo MaxX - Cezar, sabendo que grande parte, senão a maioria, dos seus escritos daquela época remonta a vivência turbulentas com os amigos e os amores me fale sobre o seu ritual na escrita... o que você costuma fazer antes de escrever um poema, ou durante a escrita?.. Existe alguma ambiência que te deixa mais inspirado, ou alguns estímulos como música, incensos velas, etc (o que me faz pensar numa relação sensualista na própria concepção da poesia)? Eu digo isso porque, por exemplo, tenho muita inspiração quando estou na rua ou nos bares e cabarés... a coisa explode de um jeito dentro de mim que acabo fazendo como Pollock, ejaculando no papel todas as luzes que me atravessam.
Cezar Sturba - Minhas criações são muuito inusitadas... Minha mente faz parte do meu corpo, assim tudo que eu leio ou aprendo passa a fazer parte do meu corpo, ou seja, carrego isso tudo sempre; estão sempre comigo. Quase todos os meus textos começam baseados numa única idéia, a tal idéia da inspiração e essa prima idea pode acontecer a qualquer momento e/ou toda hora. As coisas simplesmente acontecem, elas simplesmente vem.. como um txt que escrevi enquanto me veio um insight sobre uma propaganda comercial na televisão que estava assistindo ou outro quando estava na fila de abate do Banco do Brasil ou em situações em bares na noite ou no amanhecer ou completamente sozinho. Acho que isso deve ser O MAIS NATURAL POSSíVEL. Muitos apressados se programam, planejam ambientes para a criação, mas no fundo só estão atropelando o fluxo natural das coisas. Estão encomendando txts para si próprios e o fim disso é a repetição e o lugar comum de si mesmo.
A segunda parte da minha criação, depois da luz-lágrima-nos-olhos da primeira idéia, é a escrita do texto propriamente dito, cuidando da sua leitura, desleitura e lapidação (mas não no sentido parnasiano pelo amor de Krishna). Ai sim devo estar dentro de um ambiente. Hora do dia? A noite, na mãe de todos os sonhos, a Noite, sem o barulho imperceptível das máquinas do dia, na hora em que se sente a energia leve de todos os vizinhos que estão em suas casas relaxando depois de um dia de trabalho, de todo o bairro que está gozando de seu ócio de toda a América que dorme e é incapaz de me incomodar, se sente essa banda energia e eu escrevo. Bebendo, simm, bebendo e muito porque minha mente se abre como um rio. Esse rio sente sobre si tudo o que o mundo traz e gera ondas.
IkaRo MaxX - Gostaria que você me falasse também do seu conceito de livro... o que levou você a compor o "O Livro VerdeDas Verdades"? De onde surgiu esse nome, as idéias gráficas, como foi a gênese deste primorosa trabalho de estréia que repercutiu bem na crítica especializada? Como você se sentiu ao ler as primeiras críticas ao seu trabalho, cara?
Cezar Sturba - O livro verde foi terminado num divã de uma psicóloga no qual estive por dois anos.
Pode parecer um livro, mas pra mim é um grito. Um necessário grito que eu precisava dar como afirmação da minha vida e isso só foi entendido naquele divã, com aquelas perguntas que ela me fazia, ou que eu mesmo me fazia e eu mesmo me respondia. “Afinal o que vc quer: asas ou raízes?” O livro verde das verdades são minhas asas sendo abertas. Nos idos de 2003 eu estava vivendo um abismo trazido depois de dois anos das perguntas da filosofia; não é fácil estudar uma disciplina que lida sempre com a verdade se vc não sabe qual é a sua verdade. O filosofia havia destruido a maioria das minhas respostas para o mundo, das maiores, a CRENÇA na ciência como qualquer vira-a-bunda do séc XX. Nesse ambiente, eu procurava remediar a crise com tudo: li e procurei o espiritismo, fui em várias palestras no Encontro para Nova Consciência em Campina Grande na Paraiba (um encontro ecumênico) onde conheci a sacerdotiza Yatamalo de JPessoa, uma fortaleza em pessoa estudiosa de Carlos Castañeda e me submeti a um transe num ritual de cura em xamanismo, quando descobri que estava “doente”. Tomei pela primeira vez o chá do Daime e tomei uma prazerosa e reveladora surra. Como última tentativa de extrapolar todas as minhas seções, até pensei em enveredar pela carreira política... tentei de tudo, mas foi a psicologia que me deu o centro. Antes do livro escrevia sem pretenção alguma; depois dele veio a pretensão e a afirmação. A capa traz um material todo em azul calcinha e em choque o título “O livro verde das verdades”. Choque. Uma explosão sutil que os apressados não vêem. Fiz questão de boicotar a palavra ‘verdade’ pois há muito me incomodava em relação a filosofia. Recebi as primeiras críticas com medo, pois estava demasiado vulnerável e não habituado em me expor tanto.

Lancei o livro num grande encontro de poesia em Natal-RN onde até a governadora estava presente, mas aquilo pra mim era uma rejeição pós-parto; eu ainda não sabia como lidar com a dimensão daquela minha exposição despretensiosa. Era somente uma criança com uma faca bem afiada nas mãos. Não sabia a quem matar primeiro: os costumes, a arte ou ao antigo Cezar.
IkaRo MaxX - Entendo muito bem essa sensação. Quando lancei o meu primeiro livro - Um Cristo Cuspido no Espelho do Século - aquele que você me passou o edital e o batizou, o lançamento ocorreu na Igreja barroca de São Francisco aqui na capital e o fato de a platéia estar lotada com autoridades e tudo o mais me deixou atônito de início... mas, eu já sabia o que queria e deu no que deu! Fui praticamente expulso do lançamento do meu próprio livro! E a maior das ironias: após o lançamento, na sessão de autógrafos, descobri que o meu livro vendeu mais que os demais! O que nos valeu uma noitada louca nos puteiros da cidade. Adentrando no que você disse, da sua ingenuidade perigosa - a criança com a faca nas mãos - e os alvos possíveis, quem você acha que atingiu com mais gosto, com mais devoção ou com o maior cuidado? O antigo Cezar foi deposto para o surgimento de que Cezar?
Cezar Sturba - A resposta vai por dois caminhos: no plano concreto atingi somente mil pessoas, já que eu mesmo fui minha editora, meu diagramador, meu distribuidor. Montei meu material com meu dinheiro e fiz minha distribuição somente para amigos, conhecidos e interessados. Num plano simbólico acho que atingi aos trÊs: os anticorpos da minha crise contra-atacou muito bem atingindo tudo o que me sufocava, todos os domínios que precisava reclamar.
Eu não escolho como devo escrever, eu não planejo a quem atacar, tudo que me vem é sincero, é simplesmente eu. Sem engajamentos; o Cezar precisa denunciar doenças latentes dos modos de viver, precisa continuar a tarefa da arte em dar o choque numa geração zumbi que não vive grandes guerras nem tem um inimigo claro declarado e tudo isso, junto a exposição dos mais obscuros recônditos de mim, mata a pessoa que fui. NINGUÉM é o mesmo depois de uma publicação, ou é? me diga você! é como se entregar de bandeja a glutões famintos que só querem comer e sentir o prazer da degustação. Mas o detalhe é que apesar disso tudo ter me atingido em cheio, não é nenhuma surpresa minhas mudanças e desdobamentos. Novos cezares é uma novidade não nova. Eu lido muito bem com a mudança e com o renascimento; minha nova face depois de uma publicação não é uma novidade, apesar de ser novo.
IkaRo MaxX - Uma pergunta para pescar um pouco de suas experiências anteriores, adolescência & infância, qual foi a experiência decisiva que lhe fez tomar consciência de que o Cezar era um poeta/escritor? Existiram influências próximas a você ou foi por conta do contágio na própria edução, na cultura, nos discos, filmes e livros? E no caso do contágio, quem foram esses que te revelaram uma nova auto-consciência da poesia na sua vida???
Cezar Sturba - Perguntinha grande demais para os 2048 caracteres do Orkut...Eu sou mais humano do que artista. O primeiro é mais amplo; o artista é só uma parte do humano. Não vejo na minha vida um estopim para o artista, somente um aprofundamento gradativo do que é ser humano numa maior gama de possibilidades do que outros que só repetem modelos sociais, emocionais etc. Por isso não tive uma experiência decisiva para manifestar meus escritos; tudo somente me tornava mais humano. Quando lancei O Livro Verde me dei conta que isso, ser poeta, fazia parte mesmo de mim. Influências pessoais próximas no começo para a escrita? Zero. Taaa.. eu vivo no século 21; ninguém pensa em poesia aqui, nem no Brasil nem no mundo. Somente quando mudei pro nordeste que comecei a conhecer um pessoal no meio acadêmico. Claro, dois ou três. Minhas influências começaram do tipo da música que mais me respondia, que mais me completava, o Rock, e sempre tive uma sensibilidade para entendê-lo para além da música desde os meus 13. Sempre soube que ali tinha algo mais do que um estilo de música.
Me identifiquei muito com a cena do fim dos 60 e Morrison me apresentou Rimbaud que por sua vez me apresentou Baudelaire e todos os malditos franceses do séc XIX. Só depois me vieram os beats e a compreensão de outras formas de liberdade. No Brasil Raul, Cazuza e A. Antunes com o tremendo poder dos concretistas. E na poesia o inrotulável Drummond, espírito de letras livres e uma vida regrada (heheh.. um pouco como eu) e com tantos mais hetoronômios que Fernando Pessoa ainda que não formalizados. E na música a erudição, as crônicas e as formas do lado bom da MPB também me davam sinais pra escrita.
Mas acima de tudo isso, ainda, o que me deu o centro, foi grito da minha verdadeira cena, o que colocaria tudo isso num calderão e temperaria a seu gosto, o Rock n’ Roll e suas doutrinas e anti-doutrinas e seu jeito de se comunicar com o mundo sempre de um modo (apesar de todas as suas formas) mais destruidor, mais agressivo, mais juvenil... esse é o tom da minha voz. 
IkaRo MaxX - Gostaria que você falasse mais sobre esse processo de cura xamânico a que você recorreu quando descobriu o Cezar "doente". No que consistia essa doença que você identificou em si mesmo? Ah, muito tempo atrás me peguei sofrendo alguns efeitos de uma enfermidade voraz que descobri como sendo a "necessidade de identidade", e era uma coisa que me atormentava nos vôos que fazia. Mas, comecei a lidar com isso também... posteriormente identifiquei esse mesmo efeito em outros escritores, no que eles mesmo chamavam de "crises" e eu sou uma grande crise cheia de cicatrizes de intervenções cirúrgicas e renovações radicais. Minha experiência no manicômio me mostrou isso mais do que nunca. O que você diria a respeito disso, do processo de buscar ou ser contaminado pela inspiração como um fenômeno de possessão ou de doença do "espírito"?
Cezar Sturba - Era segunda-feira, Shirley e eu estávamos numa casa grande, grande também era o quintal apresentando uma natureza forte entremeado com estátuas clássicas e barulho de água corrente. Era uma sessão de cura pelo xamanismo na casa de Yatamalo no bairro dos Estados em João Pessoa. O visual da casa naquela noite... humm.. eu não sabia que havia um visual daqueles em Jpessoa. Entramos numa roda; cada um podia escolher o instrumento que quisesse pra fazer música ou ruído. Escolhi algo percussivo. A mestre de cerimônia começou a falar no meio da música coletiva que fazíamos... não lembro de muitas palavras somente que eram de calma e relaxamento, mas ditas num tom imperativo .. ela dizia “respirando todas as cores” e bem dizia o verde das folhas das árvores e o uivo dos lobos...num dado momento parou com tudo e cada um da roda tinha que falar ao grupo um desejo para o mundo... a cada desejo todos tocavam seus instrumentos e ela falava algo rápido num dialeto xamã. “Que o homem pare de querer se separar da natureza” eu disse. E a coisa começou a se aprofundar. Me sentia um integrante insubstituível da música que fazíamos.. a mesmíssima sensação de quando participei de uma sessão de música coletiva com o grupo artístico Embassação na mesma João pessoa. Num tom formal ela chamou pro meio da roda aqueles que estivessem ali por uma cura. Foram dois. O primeiro foi um homem de estava com câncer. E o segundo fui eu. Ela me perguntou qual era minha doença, eu disse “não quero mais sentir o vazio”. Ela disse que eu não estava doente, mas um integrante da roda interveio dizendo que também sentia esse vazio e que era uma anomalia que, diante do milagre da vida, ainda nos sentirmos vazios e que isso era uma doença de espírito que afeta àqueles que olham para o espelho do mundo. Fiquei no meio da roda com as pessoas tocando seus instrumentos; ela tocava meu corpo de um modo que nunca antes tinha sentido. Doia.. eu grunhia de modo irreconhecível e ela narrava as coisas que estava tirando dos músculos das minhas costas...

... no final, ela pediu para que eu me levantasse e me integrasse a roda, mas eu não conseguia. Sem ter ingerido nenhuma substância, sem ter alterado com NADA meus estados de percepção, estava completamente zonzo... o que destruiu meu velho ceticismo científico/filosófico um pouco mais. Quando fiquei de pé ela disse somente que algo ou alguém havia roubado minha luz... acho que eu precisaria recuperá-la... Disso tudo só cheguei a conclusão de que meu espírito não está doente, só estava sofrendo. Mas fica essa primeira impressão porque me envolvo demasiadamente com o mundo e devido a minha diferença dele eu pareço estar doente por ser um pouco diferente, mas quem está doente É O MUNDO. Eu só estava olhando para um espelho e acreditando muito na imagem que via.
IkaRo MaxX - Pegando o gancho da pergunta anterior, você resumiria essa sua atitude de buscar a cura como um "regramento dos sentidos" (para desconstruir a noção rimbaudiana)? Talvez sejam apenas ideais, ou fantasmas, mas, o que você pensa a respeito deles?
Cezar Sturba - Acho que o homem caminha pela dicotomia do caos e da ordem e isso é tão próprio dele que pra mim as pulsões de morte e de conatus são coisas absolutamente naturais nessa vida sem sentido algum. O homem, melhor, o ser humano é ser criação e destruição. Por isso que a desconstrução dos sentidos em Rimbaud (que pode levar a destruição da própria vida) é algo lindo, próprio do homem e que ele não teve nenhum receio em explodir para o mundo. Rimbaud foi um ser humano pleno por ter investigado e vivido o extremo da destruição. Assim como Lautréamont que é ainda mais destrutivo nas letras e talvez menos na vida. Ou que será o contrário? Ou que ambos se destruam. Sei lá, o que eu quero fazer tem uma ordem: destruir sim, mas depois recriar. O que me vem naturalmente é algo benigno no final. Isso não é uma novela. Não quero somente destruir como estes meus ídolos fizeram porque isso não sou eu. Deles eu herdo o espírito, não as intenções, porque neles eu achei algo meu, mas eles não me resumem. Detestaria que alguns imbecis pensem que to querendo ser um mocinho, o bom moço no final, que se fodam esses; eu só quero ler o que eu mesmo escrevo e me ver de verdade naquilo. E eu acho que eu sou isso, alguém mais positivo do que negativo. Que ainda acredita na beleza mesmo com todas as cicatrizes da vida e dos modos de viver, porque até as catástrofes e os destroços da vida são belos: a prova disso é que mesmo quando você erra, mesmo quando vc se fode, você aprende. Tudo isso não tem sentido algum, eu sei, não tem pecado, não tem julgamento e o que vale é o presente momento para o futuro. Até morrermos como plantas secas. Mas eu acho tudo isso bonito. único.
IkaRo MaxX - O que você acha que seria o papel do poeta ou do escritor diante do contexto relatado em sua resposta? "Sem engajamentos; o Cezar precisa denunciar doenças latentes dos modos de viver, precisa continuar a tarefa da arte em dar o choque numa geração zumbi que não vive grandes guerras nem tem um inimigo claro declarado... " Você acha que ainda pode-se revolver os intestinos da civilização para descortinar de onde surge este vazio CHEIO de coisas?
Cezar Sturba -
cara, esse negócio de ter um papel, de ter uma função dentro de um coletivo, é uma noção herdada do positivismo que entende tudo como uma máquina na qual todos seus componentes devem desempenhar bem suas funcionalidades para que todo o coletivo progrida. Pode ser exagerado, mas vejo o positivismo como o berço do fascismo e Comte seu pai. O artista, essa lâmpada da humanidade, a fim de atingir a si mesmo na sua forma de expressão, tem um único dever: desobrigar-se de deveres. Uma desobediência civil, moral, emocional. Só assim encontra seu espírito livre, seu espírito nu, e conseguirá responder a si mesmo na sua expressão. Esse é seu "papel", responder a si mesmo, seja em forma ou conteúdo. Se isso for realmente fiel, honesto, ele estará respondendo a seu tempo, porque ELE ESTÁ INSIRIDO EM SEU MUNDO e desse modo estará contribuindo para o coletivo seja histórico seja humano e atemporal. Por isso que acho que não devemos nos expressar partindo do princípio de NENHUM engajamento e NENHUMA ordem porque simplesmente não estaríamos livre de fato. Arte que parte desses princípios, que parte de racionalidade no plano consciente voltada a denúncias sociais etc são formas de artes menores (claro que existem excessões como Brecht ou Victor Hugo).
Atingido este estágio de nudez, quando o artista se encontrar num estado de espírito o mais liberto possível, o que Tom Zé vai dizer de estar numa sala em branco absolutamente sozinho e pleno de si, cada vogal que pronunciar, cada cor que ver, cada som que produz, sem o contágio das suas influências, tem um estrondo ENORMEE, uma combustão de mil bombas que pode facilmente revolver os intestinos da civilização, qualquer civilização! Quando falo que preciso denunciar doenças latentes e tentar continuar a tarefa de choque da arte é porque achei isso em mim, DE VERDADE, quando estava nu nesse quarto, no escuro e solitário devorando a mim mesmo. Um papo bem teórico esse...hehehe
IkaRo MaxX - Queria também entrar neste debate... o Rock'n'Roll... assim como você o Rock'n'roll teve um efeito esmagador e liberador sobre mim.. que percebi a atitude, a crítica, a corrosão por trás da plasticidade e da fúria dos instrumentos nas canções ou das várias maneiras de se agarrar a ele como uma contra-onda em direção ao sistema. A partir disto realmente ME VI como não fazendo parte de nada disto que estava posto no mundo... me vi inserido nestas contestações e nessa sublevação irônica e iconoclasta... no que você reconhece de importante para a constituição de uma identidade que o rock transmite? Existe alguma promessa que pode ser vislumbrada ou cumprida pelo Rock'n'roll para as gerações jovens? Queria extender esse debate porque foi o ROCK'N'ROLL o "responsável" - digamos - por abrir minha consciência para a arte no geral & na vida (para a poesia, literatura, artes plásticas, tudo!), principalmente, como uma atitude de contestação cotidiana.
Cezar Sturba - Tudo o que você disse parece ser palavras minhas porque nos comunicamos dentro de uma mesma geração. O que é o Rock'n'Roll? Acho que para ter uma visão mais exata disso devemos peguntar para aqueles que o viveram desde os primórdios. Destes, li certa vez que a sociedade do começo dos 60 se dividia entre crianças e adultos; o jovem, aquele entre 15 e 23 anos vamos dizer, era visto somente como uma criança querendo ser adulta... refletia suas ações voltada ao mundo adulto. Aí o rock explodiu. Um veículo manifestado pelas vias musicais trazido ao mundo no cerne pela filosofia e literatura beat estadunidense e transformado em música por brancos anglo/yankees de idioma inglês oriundo da cultura milenar musicista dos negros norte-americanos. Os grupos escreviam seus anseios, suas idéias; a música era o instrumento, a guitarra somente um meio de executá-la. O rock criou o jovem, deu-lhe voz. Quebrou aquele rito de passagem com mais um grupo, as petições e os ideais daqueles que estavam naquela transição também surgiram. A partir de então o mundo adulto teve que engolir a força de suas próprias idades e entender os passos da vida como infância, juventude e maturidade. Então, com certeza o rock transmite identidade para um grupo que outrora não tinha nenhuma. Por isso acho que o século XX foi um dos mais revolucionários da humanidade (salvando a antiguidade grega) não obstante os avanços cientíticos (eles foram IMENSAMENTE maiores nos gregos antigos), a emancipação da mulher e o surgimento do jovem foram fatos quase únicos na história do homem e ai o Rock n' Roll entra de sola, entra sem perdir licença ou limpar a boca com guardanapos. Por isso foi preciso ser agressivo, pois o status de jovem nunca aconteceria sem guerra, sem contestação e protesto. Sem desobediência. Por isso O ROCK NÃO ERROU! O jovem conquistou o mundo! Seu mundo. Por tudo isso, por entendê-lo para além de um modismo e de um estilo de música, colocaria o Rock num nível a mais, num nível antropológico e suas influências são, sem dúvidas, celeiros de novos artistas como nós. E eis que uma linguagem que partiu da literatura de escritores e poetas beats como Kerouac, Ginsberg ou Burroughs, depois e tantos arrodeios, retorna a nós para que possemos transformá-la ou assassiná-la para que nós e eles alcançemos outros desdobramentos.
- LITERATURA CLANDESTINA -
também em http://literaturaclandestina.blogspot.com/2009/09/entrevista-com-o-escritor-cezar-sturba.html