Monday, November 23, 2009

Hallellujah

Glória! Matamos o pensamento... de uma vez arrancamos o cérebro pulsante e faminto para desdenhar a riqueza abstrata! Sob forte golpes de palavras que ferem como ferro quente a massa se estendeu no pardieiro da obediência cega. Aquela voz barbada parecia ressoar em suas tripas como vermes famintos. Olhavam de baixo a vida com seus imundos pensamentos, suas imundas conjecturas, seus nexos lógicos e suas explicações absurdas. Não se entendiam... seus monólogos se estendiam em direção aos outros que, em vão, disputavam com os seus próprios numa cadência que nunca se contaminava. Com a mão cheia de barro, os ídolos caídos, um homem ria enquanto via o escarcéu daquelas pobres pessoas presas à fé. "Irmão, venha conosco, limpa esse sorriso e resigna-te, tu, destruidor de ídolos!" Limpando as mãos das migalhas do sobrenatural, ele se virou para trás e gargalhou com todo seu corpo... seu esquelético corpo, seus ossos frágeis como uma luva. "Espanco-vos todos com o frescor do meu fogo... o incêndio é o princípio da alma... entenda que nada pode ser feito com uma alma de pedra! Nem nada vive se não haver ar... Sufocas teu deus nestes templos insensatos, nessas casas que mais parecem manicômios!", virou-se e saiu. "Louco", disseram eles... olhando o pastor com cara de cachorros desmenbrados... o Pastor, de olhos vazios, gaguejava suas honras fúnebres...

"No entanto" , uma voz veio do fundo, "a razão está morta... matamos tudo!! Nada nos resta senão a misericórdia do Absoluto que tudo pode!" A criança com riso de louco nem se deu o trabalho de virar... "e quem disse que louvo ou trabalho em prol desta estultice? Não me escondo atrás de medos, muito menos de escrúpulos quaisquer... deveis - já que amam tanto os deveres! - algum dia beber comigo e melhor me conhecer... a dissecar seus próprios impulsos numa espera lancinante..."

Os filhos de alguns crentes se desgarraram da barra da saia da mãe e seguiram o estranho. Ele flanava como uma borboleta chapada, seus pés leves, suas mãos densas e incógnitas, sujas de sua última obra-prima. "Se a criação é uma arte... a destruição não será diferente..."

O sol baixava... os grilos correram para os lagos para compor sua serenata. O céu abriu estrelas que gritavam dizendo que a morte era impossível. Elas ainda brilhavam...


IkaRo MaxX

Friday, November 20, 2009

a real poet




Nascido em Marysville, Kansas no dia 26 de Maio de 1916[1], Louis Thomas Hardin mudou-se logo cedo com sua família para Wyoming, um estado caipira no oeste dos Estados Unidos dominado por montanhas distintas e famoso por ter a menor população de todos os estados do país, grande parte de tribos nativas. Lá, morava numa cabana de madeira, ia pra escola de cavalo e se sustentava com caça e pesca próprias. Um episódio que Moondog sempre fez questão de recordar foi quando o chefe de uma das tribos, Yellow Calf, o deixou tocar taumtaum, um instrumento feito de pele de búfalo.

Aos 16 anos, um acidente com um dinamite o deixou cego, fato que contribuiu, ou não, para seu desenvolvimento perceptivo e auditivo. Aprendeu os princípios da música em algumas escolas pra cegos, em St. Louis, mas a maior parte de sua formação teórica foi autodidata, lendo livros em Braille sobre história da música e teoria musical. Nessa época, começou a escrever suas próprias peças, em Braille.






Em 1943, mudou para Nova Iorque, onde conheceu nomes como Bernstein, Toscanini, Charlie Parker e Benny Goodman. Tendo suas raízes nativas e uma vivência invulgar, e sendo exposto à novos horizontes, Moondog passou a projetar sua música num sentido visionário, expandindo a essência de suas fontes regionais com as técnicas sofisticadas de contraponto e as novas estruturas que estavam sendo exploradas nos temas modais. Mais tarde, Philip Glass e Steve Reich o apontaram como a gênese do minimalismo, ao que o humilde e espirituoso Moondog respondeu: "Bach já fazia minimalismo nas suas fugas. Então, o que há de novo?"




A partir do disco Moondog de 1956, o primeiro gravado pela Prestige, uma gravadora de jazz, sua obra começou a crescer - versátil, viva, surpreendente, plena de um sentido transversal às diversas visões e sensibilidades da América, caminhando numa intersecção entre as expressões eruditas e o jazz improvisacional, e entre a exploração destas canções modernas e de suas raízes na música nativa. Conhecido naqueles tempos como o Viking de Manhattan, graças à seu visual excêntrico, quase "bizarro", passeava pelas ruas de Nova Iorque vendendo seus discos e suas partituras e tocando ao vivo.

Suas atividades editoriais e de palco só ficaram mais intensas e respeitadas entre os anos 70 e 90, apesar de bem antes já ter sido reconhecido nos meios musicais. Morreu em 1999, na Alemanha, aos 83 anos.


Tuesday, November 17, 2009

CHEGOU A HORA DE SAIR DA HIBERNAÇÃO

À todos aqueles que estiveram sedados no escuro, debaixo dos mantos sufocantes de todas as formas moribundas de subsistência, e que foram acariaciados pelo vento esvaziante da hipocrisia... tenho agora um anúncio. Está na hora de PARTIRMOS, amigos. De vez! ... primeiro, suma de sua própria mente... abandone tudo que te lembre a miséria da vida real. Para que continuar abrigado nesta cômoda maneira de falecer? Ah! Que deixem eles conspirarem... lhes dê as costas... é o melhor. A vida é a aventura das aventuras... o barco embriagado e sem rumo... o resto é a lembrança da tristeza que com correntes quer te atar ao solo do marasmo. Estou cansado de tanto fingir... que está tudo bem... que posso suportar os níveis baixos da realidade dos outros. Chamam isso de sociedade? Só vejo cobras querendo sugar outras, querendo me forçar a beber o seu veneno, a sua impotência. Ah! Esqueça... eles não conseguem administrar o seu lar direito! Dentro de sua própria casa roubam os extraviados que tentam se "acertar" na vida... e ainda dão abrigo a consciências pequenas e interioranas que se fingem de ovelhas para surrupear os frutos de labutas alheias, ou mesmo surrupear a "decendência", como se isso fosse algo tão valioso assim!!! Chega... estou com as malas prontas e as asas abertas para rumar ao IRREAL... uma vez que nada disso condiz com nada meu. Deixarei vocês aí... discutindo o meu "futuro", a minha "loucura", ou o que vocês quiserem rotular. Vocês se merecem mesmo. Acabou o tempo de paz... voltarei as estradas... pois nelas meu corpo pode gritar suas melodias intensas... e eu posso voltar a me sentir vivo de novo.

Sunday, November 15, 2009

I'M THE REAL WILD ONE




Monday, October 26, 2009

FALHAS

Nunca erga sobre a vida um dogma, meu amigo. Nunca encerre numa frase todas as possibilidades futuras! Caso o terror persista... o espante com um inesperado sorriso, com uma ameaçadora tranqüilidade.

Tive um domingo empanturrado de confusões. Era o coroamento de uma possível desistência. Achava que o buraco que cavei dera fundo demais. Em um momento estavam todos ao redor atirando flechas, ao invés de palavras amistosas, para me ajudar. Sentado no canto da sala enquanto ouvia meus familiares eu sentia tudo declinando dentro de mim. Minha respiração travava... eu entrara numa absorta alucinação de que o amor não era a via para mim. De que o amor me matara, de que eu era indigno de entrar em seu paraíso, de fazer parte de suas promessas & bonanças. Ao redor, todos me consideravam um traidor em palavras & atos. O pior dentre todos os seres que falham & pecam. E quanto mais eles falavam, mais convulsivana minha alma & meus impulsos aceleravam a batida em meu peito já deflagrado... coração em chamas coroado com os espinhos de Cristo. Impropérios sem erguia & se desmanchavam como ondas que caiam em cima das pedras à beira do mar. Os ventos levavam os resquícios de honra. Em minha defesa inconsciente rolavam palavras ardentes que estapelavam o ambiente, provocava terremotos nas coisas... a cozinha quase vinha abaixo com aquele duelo entre a vida & a morte... entre o amor & todas as coisas. As falhas são dignas, os erros são espaços por entre os quais caímos e sonhamos nossas verdades. Nada disso era tão óbvio... eu tentava fazer valer o princípio da mútua aceitação, mas, eles eram duros demais contra a minha falta de preocupação. A liberdade sem amor próprio não vinga nunca. Eu queria vingar. Olharam meus braços e encontraram marcas de auto-imolação. Sim, andara triste... qual é o problema? O corpo é ainda manifestação do meu espírito e a ele se dobra. Um pedaço a mais ou a menos... qual é a diferença? Os santos se puniam por amor ao seu adorado Deus. Loucura, diziam eles. E se diziam crentes. Nenhum argumento é possível para defender sua posição... estás errado. Falhaste!, ponto final. Ou você nos segue ou estarás perdido. Imagine se seu caso cai em mãos superiores! Ó, estarei para sempre condenado. O tribunal dos homens... a lei de Atenas... a crucificação no Gólgota... as fogueiras e os festivais das ditaduras. A maldade humana disfarçada de bem, de bom, de justo. Tudo bem... levem aos meus carrascos. Quero olhar bem nos olhos deles e dançar enquanto meu corpo pega fogo. Quero enfurecê-los mesmo na minha hora derradeira. E ainda dizer, com um sorriso doce, "eu vos perdôo...".

Falhas... falhas tudo... confias demais em ti, na vida, nos outros... confias demais no presente e no absurdo da vida. E não é por acaso que depois de todo este sacríficio, essas ameaças de loucura ininterrupta... eles ainda... te furtam! sim... te furtam... mesmo depois de teres sacrificado sua verdade para se encaixar no mundo deles e fazer tudo "correto", como reza os mandamentos... TRABALHO... TRABALHO... TRABALHO... TRABALHO... e do nada, já não me querem! Tome... eis vossa recompensa! Depois disto... procuro relaxar e tentar outros meios... e depois, não conseguindo, sigo a vida. E hoje... justo hoje... vi que haviam me furtado! Que pirados... querem extrair do meu sacrifício & agora querem me punir por isso. Eis o amor que conheci... o amor dos que querem mutilar, nos livrar de nossos "males", de nossas bandas podres. Pois bem... eu, aceito a tudo.. menos isto.

Falhas... irei falhar mais & mais... agora, mais longe de todos vocês.

Obrigado.

Friday, October 23, 2009

E-book "PERVERSA JUVENTUDE" de IkaRo MaxX

Coloco à disposição o e-book "Perversa Juventude" de minha autoria. Quem se interessar em baixá-lo (na falta ainda de um site onde eu possa colocá-lo), pode enviar um e-mail (ikaro_max@hotmail.com ou ikaro_max@yahoo.com.br) para que eu possa enviá-lo.


Aqui vão umas passagens... & a arte da capa, feita pelo magnífico Rick Santana!





Advertência aos interessados:

Viemos aqui contradizer as normas! Amigos, sofredores e ingênuos... viemos aqui excitar o desprezo de toda a civilização. Como se pode viver se a poesia está proibida? Como se pode viver se nos foi arrancada & transformada em mercadorias e em indulgências em mercados que alienam tudo o que nos pertencem?
Tudo pertence à sede infinita do Espírito humano... mas, a própria palavra humano - assim como a palavra Amor - foi tão massacrada e desgastada que se transformou numa piada universal.
Se você já está cheio dessa falsa abundância... abarrotado de escassez & de frustrações... conheça o outro lado do Jardim... coma o fruto proibido & xingue todos aqueles que defendem a velha Ordem castrada. Os instintos são flores da liberdade... (p. 4)






Projeto do Poeta

O poeta saindo do abismo, do útero escuro das massas, de mais uma platéia imbecilizada & metida a intelectual, expôs sua vergonha... Do seu urro saíram animais famintos, aves com largos pares de asas, leopardos & visões... as serpentes acompanhavam seus passos. As palavras pareciam gangrena. E como eram belas aquelas ruínas significantes... aquele paradoxo vivo que saía do meio daquela boca projetada entre pêlos brancos & imundos de sua barba. O tom da sua voz levita meus pêlos! As pessoas, assustadas & enojadas não sabiam o que fazer diante daquele abuso aos ouvidos castos! "Eu quero dizer a vocês... que todo poeta tem um projeto! E suas vidas são dedicada a perseguição deles! Alguns vão além do limite do aceitável, do suportável... mas, não importa... o que importa é alcançá-lo, ou ao menos ter um vislumbre dele... um rascunho. Anuncio a vocês que o meu projeto é EXPLODIR O MUNDO!"

Suas mãos ergueram-se para o céu negro que entrevíamos entre o pau-brasil. Alguém, favorável ao intento mágico do poeta, resolveu se expressar. "Isso aí!! O meu também! Concordo!", incauto, não esperava o que iria vir...

"EXPLODIR O MUNDO EM ORGASMOS!!!"

O mesmo indivíduo se manifesta de novo.. "éé... era o que eu queria dizer! Estou dentro!" Continua o poeta: "Vocês sabem né, que o orgasmos produz uma imensa quantidade de corrente elétrica no corpo humano? Nossos corpos são válvulas, são reatores químicos, verdadeiras nascente de luz, energia! Nosso corpo é uma bomba & o orgasmo é o combustível de tudo!" Ele continuava de maneira quase alucinatória... os olhos abertos como que querendo abarcar todo o campo possível do visível enquanto a boca tentava abarcar o território vasto & limitável do dizível, do enunciável... Algumas pessoas riam, outros achavam ridículos, mas, alguns - ou a maioria, ao menos inconsciente - bem que gostaram daquilo... Beijos começaram a soluçar aqui & ali, risadas cúmplices de amantes, jogos...

"Caralho... ninguém aqui ouviu falar de Wilhelm Reich?!" Resposta do público - Silêncio. "Vamos todos TREPAR, porra! Se todo mundo aqui trepar podemos expandir uma energia que nenhuma usina no mundo pode produzir, apenas usando corpos, boca, sexo! TREPEM, PORRA!!! Que falta de excitação pra vida que vocês tem hein? Será que eu tenho que ser sempre o primeiro em tudo?", saiu do espaço mal-iluminado do pequeno teatro de arena & foi sentar-se para tomar cachaça. (p. 24-25)

Sunday, October 18, 2009

O LIBERTINO




"Permitam-me ser franco
Neste começo
Não vão gostar de mim.
Os cavalheiros sentirão inveja
e as senhoras nojo.
Não vão gostar de mim agora
e passarão a gostar menos com o tempo
Senhoras,
um aviso.
Quero Transar.
O Tempo todo.
Não estou me gabando e nem opinando.
É apenas uma constatação médica:
Eu sou promíscuo.
E vocês me verão sendo promíscuo, e irão suspirar.
Não façam isso.
É melhor para vocês ver e tirar
Suas conclusões de longe...
Do que eu enfiar meu pênis
Dentro de sua saia.
Cavalheiros,
Não desesperem.
Também sou promiscuo com vocês
E vale a mesma advertência.
Controlem suas ereções até eu acabar
De falar.
Mas, mais tarde, quando transarem,
E mais tarde vocês vão transar...
Esperarei isso de vocês e saberei,
Se me decepcionarem.
Eu quero que transem...
Com a minha imagem em miniatura
Rastejando em suas gônadas.
Sintam como era pra mim...
E pensem:
“Este tremor foi o mesmo tremor que ele sentiu?
Ele conheceu algo mais profundo?
Ou existe alguma parede de miséria
Na qual todos batemos a cabeça...
Naquele momento luminoso e eterno?”
É isso.
Este foi o meu prólogo.
Nada rimado.
Nada de falsa modéstia.
Espero que não queiram isso.
Sou John Wilmot.
O segundo Conde de Rochester...
E não quero que gostem de mim."

Prólogo - O Libertino